Na primeira sessão legislativa do semestre, nesta terça-feira (12/8), a Câmara Municipal de Goiânia deu mais um passo para a instalação da Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Limpeza Urbana, conhecida como CEI da Limpa Gyn. A Mesa Diretora leu em plenário o requerimento que pede a investigação do Consórcio Limpa Gyn (QC Ambiental), responsável desde meados de 2024 pela coleta de lixo e limpeza das ruas da capital.
A leitura marca a apresentação oficial do pedido, que ainda precisa ser votado para definir sua abertura. A proposta, de autoria do vereador Cabo Senna (PRD), enfrenta resistência e é vista por opositores como instrumento de barganha política dentro da base do prefeito Sandro Mabel (UB).
Mesmo sob pressão do Paço Municipal – incluindo uma reunião organizada pelo prefeito na sede da Limpa Gyn na semana passada, com a presença de 13 vereadores –, nenhum parlamentar retirou a assinatura do requerimento.
O autor do requerimento, vereador Cabo Senna, destacou a importância da Comissão Especial de Inquérito (CEI) para fiscalizar os recursos públicos destinados ao contrato com a empresa terceirizada Limpa Gyn, que ultrapassa R$ 500 milhões. Segundo ele, apesar do alto valor investido, a limpeza da cidade continua insatisfatória.
“O trabalho da Limpa Gyn está deixando a desejar. Foi por isso que abrimos a Comissão Especial de Inquérito, para investigar o motivo. A sociedade tem cobrado dos vereadores a limpeza da cidade, a imprensa divulgou fotos e vídeos da sujeira, e todo mundo está vendo. Nossa avaliação é de que a CEI deve continuar”, afirmou.

Senna explicou que o presidente da Câmara, Romário Policarpo, já leu o requerimento em plenário e que agora falta apenas a oficialização aos partidos para a indicação dos membros da comissão.
O vereador ainda fez uma comparação com a época em que a limpeza urbana era executada apenas pela Comurg. “Eu me lembro que, quando era só a Comurg, a limpeza era muito melhor do que depois que foi dividida para duas empresas”, disse.
Para ele, a CEI precisa apresentar uma resposta definitiva à população. “Quando solicitamos a abertura, a Limpa Gyn começou a trabalhar mais. Mas o que aconteceu? Por que não estava fazendo isso antes? Vamos buscar essa resposta. Se constatarmos que não estão cumprindo o contrato, até mesmo a rescisão poderá ser considerada. Queremos a limpeza da cidade, porque pagamos por isso”, concluiu.
O vereador Anselmo Pereira (MDB) destacou a falta de informações claras sobre as atribuições dos órgãos responsáveis pela limpeza urbana de Goiânia. Segundo ele, é fundamental definir as competências da Limpa Gyn, da Comurg e da Amma, para que tanto a população quanto o poder público saibam exatamente o papel de cada um.
“É preciso distribuir tarefas e cobrar resultados. Quando se faz uma concessão, é necessário fiscalizar quem recebeu essa responsabilidade. É preciso informar os horários de coleta, explicar de forma clara o funcionamento do serviço Cata-Treco e investir na educação da população”, afirmou.

Na mesma linha de raciocínio, o vereador Sanches da Federal reforçou a necessidade de definir, com clareza, quais serviços cabem à Limpa Gyn. Ele também ponderou sobre o momento político, mencionando um “leve atrito” entre Executivo e Legislativo.
“A conversa precisa ser melhor articulada. A limpeza urbana deve ser aprimorada, mas é preciso avaliar se este é o momento adequado, já que a outra CEI, da Comurg, não teve o resultado desejado. Se for feita, tomara que seja uma CEI séria, que fiscalize e contribua para melhorar a cidade”, disse.
Já o vereador Sargento Novandir (MDB) demonstrou ceticismo em relação à criação de uma nova comissão.
“Acompanhei algumas CEIs aqui e confesso que fiquei totalmente decepcionado, não resolveram nada”, afirmou, citando as comissões do Transporte Público e da Comurg.
“Eu tenho um trauma com CEI aqui na Câmara de Goiânia”, completou.
Para ele, não há necessidade de investigar a Limpa Gyn, já que o contrato já define claramente as atribuições da empresa e da Comurg.
“No meu entendimento, é zero a necessidade de uma CEI. A Limpa Gyn está fazendo um trabalho de limpeza muito bom”, concluiu.
‘É uma CEI da base do prefeito para pressionar e obter mais cargos’
Integrante da oposição, o vereador Fabrício Rosa (PT) afirmou ser favorável a toda forma de investigação, por entender que esclarece fatos e dá transparência à população. No entanto, disse enxergar indícios de interesse político por trás da proposta de criação da Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Limpa Gyn.
“É importante investigar, porque temos recebido muitas denúncias da população de que a Limpa Gyn não tem prestado um bom serviço: não atende vários bairros, atrasa, deixa de ir e, além disso, há suspeitas de superfaturamento no contrato”, afirmou.

Segundo ele, a oposição não foi convidada a participar das discussões iniciais da comissão.
“Parece que a base do prefeito cria essa CEI para conseguir mais espaço na prefeitura – mais cargos, mais verbas e mais acesso a serviços. Esse não é o tipo de política que fazemos. Não buscamos cargos na gestão Mabel. A CEI foi criada sem assinaturas da oposição e, até o momento, não participamos dela justamente porque entendemos que sua finalidade é pressionar o prefeito por mais espaço no Executivo”, disse.
Fabrício Rosa classificou a iniciativa como parte de uma disputa interna da base governista.
“Parece que a base se movimenta apenas em busca de cargos, no velho esquema do ‘toma lá, dá cá’, fisiologista. A oposição age por princípios. Essa é uma CEI da base do prefeito para pressionar o próprio prefeito e obter mais cargos”, concluiu.
