A Justiça converteu em preventiva a prisão da advogada Keythlyn Evelyn Teixeira de Lima e de sua secretária, Patrícia de Oliveira Santos, suspeita de se passar por advogada. Ambas foram presas na última sexta-feira (14/8) durante a “Operação Quitação Falsa”, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás (PCGO). A dupla é investigada por aplicar golpes de revisão e quitação de financiamentos veiculares, deixando um prejuízo acumulado que já atinge dezenas de vítimas desde 2020.
O esquema operava a partir da promessa de renegociar parcelas e obter descontos expressivos junto às instituições financeiras. As investigadas orientavam os clientes a depositarem os valores das parcelas reajustadas ou da quitação diretamente em contas pessoais do escritório, alegando que o dinheiro seria repassado a contas judiciais ou a “feirões de negociação”. No entanto, os repasses nunca eram efetuados aos bancos, deixando os proprietários expostos a mandados de busca e apreensão e à perda dos veículos.
Para conferir credibilidade às fraudes, Patrícia se apresentava falsamente como advogada e dita proprietária do escritório, utilizando cartões com símbolos da Justiça e o token de acesso de uma profissional habilitada. Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) informou que acompanha o caso por meio do Sistema de Defesa das Prerrogativas, com o objetivo de resguardar os direitos conferidos à classe.
O caso ganhou impulso quando vítimas relataram episódios idênticos no 7° Distrito Policial de Aparecida de Goiânia. O volume de denúncias cresceu rapidamente após as prisões e repercussão nas redes sociais, revelando que a extensão da fraude ultrapassa as fronteiras do estado.
“Tem vítima até fora do estado. Já ligaram na delegacia, tem vítima de Inhumas e Senador Canedo. É muita gente, muita gente mesmo. Eu não imaginava um volume tão grande. Então abrimos a investigação e solicitei mandado de busca e apreensão e prisão preventiva, que foi concedida em um dos processos”, destaca o delegado Henrique Berocan.
Durante a audiência de custódia realizada no sábado, a defesa de Keythlyn alegou estado de saúde fragilizado devido a um procedimento cirúrgico recente para solicitar a liberdade. O juiz indeferiu o pedido, fundamentando que os cuidados médicos necessários podem ser prestados no presídio. A defesa de Patrícia alegou ausência de risco à sociedade, mas a prisão preventiva também foi mantida.
A Polícia Civil orienta que outros clientes do escritório consultem suas instituições financeiras para verificar a efetiva quitação dos débitos e, caso identifiquem irregularidades, compareçam à delegacia para registrar a ocorrência.
Vítima perdeu R$ 23 mil ao tentar evitar apreensão de veículo
Entre os relatos colhidos pelos investigadores está o de Érica, cliente que procurou o escritório para regularizar três parcelas em atraso e evitar a perda de seu veículo. Inicialmente, a advogada Keythlyn solicitou o pagamento das prestações recalculadas somado aos honorários.
“Você paga as três parcelas em atraso já com o valor reduzido, que a gente junta o laudo, que dá R$ 3.240 e aí mais R$ 1.333, que é referente às despesas e os honorários já parcelados do escritório. O restante a gente negocia depois dentro do contrato, não tem problema não”, orientou a advogada em áudio enviado à cliente.
Após o pagamento inicial, Patrícia entrou em contato alegando que o saldo devedor de R$ 68 mil poderia ser quitado por R$ 23 mil mediante oferta exclusiva em um feirão de renegociação. A vítima realizou duas transferências via Pix (uma de R$ 13 mil e outra de R$ 10 mil). A partir do envio dos valores, o suporte do escritório cessou.
“Até então eu não sabia realmente que era um golpe, porque elas têm um poder de persuasão muito grande. Se você vê os áudios que ela fala, ela te dá total credibilidade. A gente realmente não acha que elas são dessa forma. Não tinha nenhuma resolução, aí elas pararam de me atender”, relatou Érica.
A vítima precisou contratar outro profissional para regularizar a situação do automóvel junto ao banco e, até o momento, não conseguiu reaver os R$ 23 mil repassados ao grupo.

