O que antes seria descartado pela cadeia produtiva da piscicultura se tornou matéria-prima para um negócio de moda e acessórios em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. Aos 51 anos, a artesã Maria José dos Santos Sousa, conhecida como Maria do Couro, transforma peles de tilápia em sapatos, bolsas e outros produtos de alto valor agregado. Com apoio do Sebrae Goiás, ela estruturou o empreendimento, consolidou uma marca com presença em eventos nacionais e agora planeja ampliar a produção e buscar oportunidades no mercado internacional.
A trajetória começou com poucos recursos e uma aposta na possibilidade de aproveitar um resíduo da produção de peixes. Ao longo dos últimos 13 anos, Maria aperfeiçoou técnicas de processamento e desenvolveu um modelo de negócio baseado no reaproveitamento de materiais, aproximando artesanato, inovação e sustentabilidade.
O ponto de virada ocorreu quando procurou o Sebrae para estruturar seu plano de negócios. Com apoio da instituição e de lideranças locais, participou de uma missão técnica no Pontal do Paraná, onde conheceu o processo de curtimento de couro de peixe com tanino, sem utilização de produtos químicos. A experiência permitiu que ela levasse a técnica para Goiás e começasse a adaptá-la às condições de sua produção.
A aplicação do método, no entanto, exigiu persistência. Maria precisou superar dificuldades operacionais e logísticas para manter o processamento das peles e evitar perdas de matéria-prima.
“Pedi muito a Deus para passar por aquilo. Não podia desligar, senão estragava tudo”, recorda a artesã, ao relatar uma noite em que precisou acompanhar ininterruptamente um fulão, equipamento giratório utilizado no curtimento, para não perder 40 quilos de pele de peixe.
Técnica transformou resíduo em matéria-prima

O desenvolvimento do negócio exigiu mais do que aprender uma técnica de curtimento. Foi necessário aperfeiçoar procedimentos, organizar a produção e buscar formas de tornar o produto conhecido em um mercado que ainda tem espaço para soluções artesanais feitas a partir de resíduos.
Adriano Teixeira, gerente da regional sudoeste do Sebrae Goiás, acompanhou parte desse processo e destaca a importância da missão técnica para a evolução do empreendimento.
“Levei a Maria nessa missão ao Paraná para conhecer o curtume de couro de peixe. Ela aprendeu a técnica de curtimento com tanino, sem produtos químicos, e foi aperfeiçoando os processos. Hoje ela tem um projeto incrível que nasceu daquela viagem”, afirma.
A técnica permite dar outra destinação às peles de tilápia, que podem ser descartadas após o processamento do pescado. Em vez de serem tratadas apenas como resíduo, elas passam por etapas de preparação e curtimento para se transformar em material utilizado na fabricação de acessórios.
O processo está alinhado ao conceito de economia circular, que busca prolongar o aproveitamento dos recursos e reduzir o descarte ao longo das cadeias produtivas. No caso de Maria, a iniciativa também agrega valor a um material associado à atividade aquícola e abre uma alternativa de geração de renda a partir do reaproveitamento.
A dimensão dessa cadeia ajuda a contextualizar a oportunidade. O Brasil produziu mais de 579 mil toneladas de tilápia em 2023, segundo o dado citado no material de divulgação do projeto. O volume da atividade evidencia a disponibilidade de matéria-prima, embora sua transformação em couro dependa de coleta, processamento adequado e organização da produção.
Apoio empresarial e presença em eventos
Ao longo da trajetória, Maria do Couro contou com orientação do Sebrae para estruturar o empreendimento e participar de eventos voltados ao agronegócio e à inovação. Entre eles estão a Tecnoshow e a Agro Centro-Oeste, espaços que permitem apresentar os produtos, ampliar contatos e buscar novas oportunidades comerciais.
A presença nesses eventos contribui para aproximar a marca de consumidores e parceiros interessados em produtos que combinam identidade artesanal e reaproveitamento de materiais. O desafio passa por transformar a visibilidade em capacidade de produção, mantendo a qualidade do couro e a regularidade do fornecimento.
O empreendimento também avança para uma nova etapa de posicionamento. Maria trabalha no lançamento da marca Filha de Mahjory, iniciativa que deverá integrar os próximos passos do negócio e apoiar a estratégia de expansão.
Capacitação de mulheres e expansão da produção
Além de fabricar os próprios produtos, Maria passou a ministrar oficinas para compartilhar conhecimentos sobre o processamento da pele de peixe. A proposta é ampliar o número de pessoas capacitadas e formar um grupo de artesãs capaz de trabalhar de maneira integrada.
O plano tem uma dimensão econômica e social: aumentar a escala de produção sem abandonar o caráter artesanal da atividade e criar oportunidades de geração de renda para outras mulheres da região. Para isso, será necessário organizar etapas de trabalho, assegurar matéria-prima e manter padrões de qualidade compatíveis com a ampliação das vendas.
A perspectiva de alcançar o mercado internacional representa outro desafio para o empreendimento. A expansão depende de consolidar a marca, estruturar a produção e atender às exigências dos mercados pretendidos. A preparação para essa etapa ocorre depois de anos de aperfeiçoamento técnico e de construção de uma rede de apoio comercial.

