Goiás chega ao próximo ciclo de governo com uma economia que cresce, gera empregos e amplia sua presença no mercado internacional. O desafio, porém, não está apenas em manter esse desempenho, mas em transformar a riqueza produzida em desenvolvimento duradouro, com mais valor agregado, oportunidades para os municípios e proteção social para a população.
Essa é a avaliação do administrador público e especialista em Gestão Empresarial Estratégica Einstein Paniago. Para ele, o Estado precisa avançar de um modelo concentrado na expansão da produção para uma estratégia capaz de ampliar os benefícios econômicos e sociais gerados dentro do próprio território.
“O principal desafio de Goiás não é crescer, mas fazer com que o crescimento crie raízes. O Estado produz muito, gera empregos e exporta para o mundo, mas ainda precisa garantir que uma parcela maior do valor, do conhecimento e da proteção social gerados por essa riqueza permaneça nos municípios goianos e chegue às famílias que a produzem”, afirma.
Um dos pontos de atenção é a concentração da atividade econômica. Em 2023, os dez municípios com maior Produto Interno Bruto (PIB) responderam por 54,6% da economia estadual, embora reunissem 47,4% da população, segundo dados do Instituto Mauro Borges.
Na avaliação de Paniago, essa distribuição torna o desempenho do Estado mais suscetível a oscilações em setores específicos, especialmente quando fatores como clima, preços internacionais e demanda externa afetam atividades estratégicas.
O desafio, portanto, é ampliar a capacidade de diferentes regiões de gerar renda, atrair investimentos e desenvolver atividades de maior valor agregado. Isso exige infraestrutura, qualificação profissional e políticas que conectem os potenciais locais às cadeias produtivas estaduais.
Reforma tributária muda a disputa por investimentos
Outra transformação relevante está na mudança do modelo de incentivos fiscais utilizado para atrair empresas. Durante décadas, benefícios relacionados ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) foram instrumentos importantes na estratégia de industrialização e expansão econômica de Goiás.
A reforma tributária, entretanto, prevê a redução gradual do ICMS entre 2029 e 2032, com sua extinção em 2033. A transição altera as condições em que os estados disputam investimentos e exige planejamento para o período posterior aos benefícios vinculados ao sistema atual.
“O que ainda não está suficientemente presente no debate é isto: a ferramenta que trouxe boa parte das fábricas vai perder força justamente quando o Estado mais precisará de novos investimentos”, alerta Paniago.
Nesse cenário, a capacidade de atrair empresas dependerá cada vez mais de fatores estruturais. Infraestrutura logística, disponibilidade de trabalhadores qualificados, segurança jurídica, serviços públicos, educação, saúde e inovação passam a ter papel ainda mais relevante na decisão de onde investir.
“A pergunta, portanto, não é apenas quanto o Estado renúncia, mas o que constrói enquanto ainda pode renunciar”, pondera.
A mudança também reforça a necessidade de avaliar os resultados dos incentivos concedidos. Para além do volume de investimentos anunciado, a estratégia de desenvolvimento precisa considerar a geração de empregos, a formação de fornecedores locais, a transferência de conhecimento e a permanência de uma parcela maior da riqueza produzida em Goiás.
Diversificar sem abandonar o agronegócio
Para Paniago, diversificar a economia não significa diminuir a importância do agronegócio, setor estratégico para a produção e as exportações goianas. O caminho seria ampliar as atividades que agregam valor à produção e criam novas oportunidades de negócios.
Isso inclui processamento industrial, logística, certificação, rastreabilidade, biotecnologia, tecnologia e serviços especializados. Em vez de depender predominantemente da venda de matérias-primas, Goiás pode desenvolver etapas adicionais das cadeias produtivas, ampliando a renda gerada no Estado e criando demanda por profissionais qualificados.
“A experiência de outras economias mostra que quem diversifica com sucesso não simplesmente troca de setor, mas sobe degraus dentro das cadeias”, explica.
Essa transformação exige investimentos em educação, pesquisa aplicada e qualificação profissional alinhada às necessidades das empresas. Também depende de projetos de infraestrutura estruturados para acessar mecanismos de financiamento e de uma articulação permanente entre governo, universidades, institutos de pesquisa, cooperativas, empresários e trabalhadores.
Na avaliação do especialista, a continuidade dessa agenda é decisiva. Projetos de longo prazo precisam sobreviver às mudanças de gestão para que os investimentos produzam resultados e as políticas públicas possam ser avaliadas e aperfeiçoadas.
Emprego cresce, mas informalidade persiste
O mercado de trabalho representa outro desafio. Os indicadores apresentados por Paniago apontam que a taxa de desocupação em Goiás chegou a 4% no segundo trimestre de 2026, enquanto a informalidade alcançou 36,1% dos ocupados. Os números mostram que a expansão do emprego, embora importante, não elimina a vulnerabilidade de uma parcela expressiva dos trabalhadores.
“Emprego e proteção nem sempre caminham juntos, e é na distância entre um e outro que mora boa parte da vulnerabilidade das famílias goianas”, afirma.
Para o especialista, reduzir a informalidade exige mais do que ampliar a fiscalização. É necessário combinar qualificação, acesso ao crédito, orientação tributária, abertura de mercados e condições para que a formalização seja economicamente viável para trabalhadores e pequenos negócios.
A reforma tributária também terá reflexos nesse processo. O sistema de créditos tributários pode favorecer relações formais entre empresas, mas fornecedores de menor porte precisarão se adaptar às novas exigências para não perder espaço nas cadeias produtivas.
“Formalizar não é enquadrar; é ampliar liberdade. A liberdade de crescer sem medo de cair no primeiro tropeço, de vender para quem paga melhor, de planejar o futuro da família”, destaca Paniago.
A preocupação envolve especialmente os pequenos negócios, que muitas vezes enfrentam limitações de capital, tecnologia e capacidade administrativa. Apoiar sua modernização pode contribuir tanto para a formalização quanto para a distribuição mais ampla dos resultados do crescimento econômico.
Continuidade como política de desenvolvimento
Na avaliação de Paniago, Goiás não enfrenta necessariamente uma falta de programas ou diagnósticos, mas o desafio de manter iniciativas pelo tempo necessário para que produzam resultados. A construção de uma estratégia de desenvolvimento exige planejamento, metas verificáveis, acompanhamento de indicadores e disposição para corrigir rumos.
“Goiás já demonstrou que sabe produzir; o desafio agora é saber cuidar do que produz: das pessoas, dos pequenos negócios que nascem, das instituições e das políticas que dão certo”, afirma.
Para o próximo governo, isso significa conciliar a atração de investimentos com a diversificação produtiva, a qualificação da mão de obra e a ampliação da proteção social. Também significa preparar o Estado para mudanças tributárias, tecnológicas e econômicas que podem alterar as condições de competitividade nos próximos anos.
A tese defendida pelo especialista é que o crescimento econômico precisa deixar resultados que vão além dos indicadores gerais de produção e exportação. O desenvolvimento se consolida quando a riqueza gera oportunidades em diferentes regiões, fortalece empresas locais, amplia a qualificação profissional e melhora as condições de vida das famílias.
O desafio do próximo ciclo de governo, portanto, será transformar a expansão econômica em uma base mais sólida e diversificada, capaz de resistir às mudanças externas e sustentar resultados no longo prazo.

