Hoje é 19 de outubro de 2026 05:09

Maior doador de Gayer é acusado de integrar organização criminosa

Empresário repassou R$ 417 mil ao candidato e faturou R$ 83 milhões em contratos sob suspeita no Pará; esquema envolve propina e fraudes em licitações
Candidato ao Senado Gustavo Gayer e o empresário Rodrigo Gonçalves dos Santos, seu maior doador de campanha e investigado pelo MPPA por fraudes // Foto: Reprodução/Intercept

O principal financiador da campanha do deputado federal Gustavo Gayer (PL) ao Senado é alvo do Ministério Público do Pará (MPPA) por integrar uma organização criminosa acusada de fraudar licitações. A informação foi veiculada em primeira mão pelo portal Intercept Brasil nesta quarta-feira (30/09), sob o título “Apoio suspeito — Gustavo Gayer recebeu mais de R$ 400 mil em doações de empresário denunciado por fraudar licitações”.

Segundo dados declarados ao TSE, o empresário Rodrigo Gonçalves dos Santos repassou R$ 417.463,40 em sete transferências via Pix ao candidato goiano. O montante representa 22% de toda a arrecadação da campanha de Gayer e equivale a quase o dobro da doação do seu próprio primeiro suplente, o empresário Leonardo Rizzo (R$ 222 mil).

O repasse expõe um contraponto no discurso do candidato. Enquanto ostenta ter aberto mão do fundo eleitoral para fazer uma campanha barata e atua como membro titular da Comissão de Segurança Pública da Câmara, Gayer entra na reta final da disputa financiado por um empresário que pode pegar até oito anos de prisão.

Rodrigo é dono da RGS Engenharia e da Gonçalves & Dias Engenharia, com sede em Canaã dos Carajás (PA). Ele e outros 11 suspeitos foram alvos da Operação Locus V – Fase Terra COMPrometida, deflagrada pelo Gaeco/MPPA em agosto de 2024. O empresário responde ainda a outras duas ações penais na Vara de Combate ao Crime Organizado do Tribunal de Justiça do Pará.

A denúncia formalizada em abril de 2025 aponta que as empresas de Santos faturaram R$ 83 milhões em cinco contratos sob suspeita na cidade paraense, incluindo obras de drenagem, pavimentação e a construção de 628 casas populares (avaliada em R$ 65,2 milhões). A fraude dependia de dois braços na prefeitura: o ex-pregoeiro, que inabilitava concorrentes ou comprava desistências por até R$ 200 mil, e um ex-secretário, que gerenciava propinas cobradas entre 6% e 10% dos contratos.

Apenas em fevereiro de 2024, o grupo teria pago R$ 897 mil em subornos. Interceptações telefônicas também flagraram Santos vazando propostas com desconto para beneficiar aliados. Além do Pará, o empresário estende seus negócios a Goiás, Rondônia, Acre, Maranhão e Distrito Federal. A empresa acumula R$ 6,5 milhões em emendas do “orçamento secreto” e mantém R$ 370 milhões em acordos federais com o Dnit e o MEC/UnB. No fim de 2025, ele tentou disputar um contrato milionário na Prefeitura de Goiânia, mas acabou inabilitado.

O caso teve um desdobramento no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em junho de 2026, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca acolheu um pedido da defesa sobre a legalidade da distribuição do processo e trancou a ação. O MPPA, o MPF e o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais recorreram, alertando que a anulação abre um precedente perigoso para apurações contra o crime organizado no país.

Em nota, a defesa de Santos afirma que as acusações são improcedentes, que a doação decorre de alinhamento ideológico e que o trancamento no STJ prova que ele nada deve à Justiça. Os advogados de Gayer declararam ao Intercept que o candidato não tem proximidade com o empresário, desconhecia seus interesses comerciais em Goiás e que acatar decisões judiciais não fere sua atuação no combate ao crime. Já a Prefeitura de Canaã dos Carajás se declarou vítima do esquema e informou ter aberto apurações internas.

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