As novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos ao Brasil colocam em alerta setores específicos da economia goiana, ainda que o impacto sobre o conjunto das exportações do Estado seja considerado administrável. A avaliação é do professor e economista Einstein Paniago, que chama atenção para uma diferença importante: os números estaduais podem indicar uma exposição relativamente limitada ao mercado norte-americano, mas não revelam necessariamente a dimensão do risco enfrentado por municípios e cadeias produtivas mais dependentes dessas vendas.
Goiás encerrou 2025 com US$ 13,4 bilhões em exportações, enquanto os Estados Unidos responderam por US$ 641 milhões, ou 4,8% das vendas externas do Estado. O mercado norte-americano, contudo, cresceu 57% em relação ao ano anterior e se consolidou como o segundo principal destino dos produtos goianos.
Para Paniago, o quadro exige uma leitura que vá além da participação percentual dos Estados Unidos na pauta exportadora.
“Não há uma crise generalizada”, avalia. O professor ressalta, entretanto, que a média estadual pode esconder situações de maior vulnerabilidade em municípios cuja atividade econômica está concentrada em determinados produtos ou mercados.
Açúcar orgânico concentra uma das maiores preocupações
Entre os segmentos que demandam atenção está o sucroenergético, especialmente a produção de açúcar orgânico destinada ao mercado norte-americano. Municípios como Goiatuba e Goianésia possuem participação relevante nesse nicho, caracterizado por produtos de maior valor agregado e por exigências específicas de certificação e comercialização.
Na avaliação de Paniago, uma eventual perda de contratos nesse mercado não seria solucionada simplesmente pela transferência imediata das vendas para outro país. A abertura de novos destinos envolve certificações, adequações logísticas, prospecção comercial e tempo para estabelecer relações com compradores.
O efeito, portanto, pode ultrapassar os limites das empresas exportadoras. Uma redução das vendas externas pode atingir produtores, transportadoras, fornecedores, oficinas, prestadores de serviços e o comércio dos municípios envolvidos.
“São municípios onde o efeito pode ser muito maior do que os números estaduais indicam”, resume.
Para o economista, o primeiro impacto de uma disputa comercial prolongada tende a aparecer nas margens das empresas e no fluxo de caixa. Em uma segunda etapa, a incerteza pode influenciar decisões de investimento, aquisição de equipamentos e contratação de trabalhadores.
Emprego e investimento entram no radar
O cenário econômico de Goiás oferece, por outro lado, alguma capacidade de absorção de eventuais efeitos negativos. O Estado encerrou 2025 com 3,87 milhões de pessoas ocupadas e taxa de desemprego de 3,9%, segundo os dados apresentados pelo especialista.
Esse desempenho, porém, não elimina os riscos concentrados em regiões cuja economia depende de poucos setores.
“A maior ameaça hoje é a incerteza”, afirma Paniago.
Segundo ele, empresas que não conseguem dimensionar com segurança seus custos de exportação, contratos e perspectivas de demanda podem adiar projetos de expansão, reduzir compras de máquinas e equipamentos ou rever contratações. Em municípios com menor diversificação econômica, esses movimentos podem repercutir com maior intensidade.
O alerta ocorre em um momento de maior pressão sobre o comércio internacional. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as novas medidas tarifárias norte-americanas atingem diferentes grupos de produtos brasileiros, com sobretaxas que variam conforme a mercadoria e a medida aplicada. Parte das exportações permanece fora dessas cobranças adicionais.
Diversificação passa a ser estratégia
Para Paniago, uma das respostas mais importantes para Goiás está na ampliação dos destinos comerciais. A dependência de determinados mercados pode aumentar a exposição de empresas e municípios a decisões tomadas fora do país.
Europa, Ásia, Oriente Médio, América Latina e África aparecem, segundo ele, como regiões com potencial para absorver produtos goianos, mas a diversificação não ocorre de maneira automática.
É necessário investir em inteligência comercial, certificações, adequação dos produtos às exigências de cada mercado, logística e compliance. O processo também exige planejamento para que a busca por novos compradores não comprometa margens ou gere custos superiores aos benefícios da operação.
A própria pauta comercial de Goiás já demonstra espaço para essa diversificação. A China foi responsável por 43,4% das exportações estaduais em 2025, enquanto os Estados Unidos responderam por 4,8%. O México, por sua vez, registrou crescimento de 148,3% nas compras de produtos goianos no mesmo período.
Para o professor, esses movimentos mostram que Goiás possui alternativas, mas também reforçam a necessidade de uma estratégia permanente de inserção internacional.
Retaliação precisa ser instrumento de negociação
Outro ponto analisado por Paniago é a possibilidade de resposta brasileira às medidas norte-americanas. O economista defende cautela para que eventuais medidas de reciprocidade não provoquem efeitos negativos sobre empresas e consumidores brasileiros.
“Reciprocidade deve servir como instrumento de negociação, não como reação emocional”, afirma.
A preocupação está principalmente nos produtos e insumos importados dos Estados Unidos utilizados pela indústria brasileira. Uma retaliação ampla pode elevar custos de medicamentos, máquinas, equipamentos e tecnologias, produzindo efeitos indiretos sobre setores que não estão diretamente relacionados às exportações atingidas.
O governo brasileiro já adotou medidas no campo diplomático e comercial para contestar as tarifas, enquanto também avalia instrumentos de reciprocidade. O próprio Ministério do Desenvolvimento tem destacado a necessidade de acompanhar os efeitos das medidas e a evolução do comércio bilateral.
Para Paniago, a resposta brasileira precisa combinar negociação, defesa dos interesses nacionais e preservação da capacidade produtiva.
Na avaliação do professor, o episódio também oferece uma oportunidade para Goiás acelerar uma agenda que vai além da reação às tarifas: ampliar mercados, fortalecer a competitividade das empresas e reduzir a concentração das vendas externas.
“O caminho é agir com prudência, fortalecer a competitividade e proteger as cadeias produtivas mais expostas”, conclui.
Mais do que o efeito imediato das sobretaxas, o cenário coloca em evidência a importância de uma estratégia de longo prazo para o comércio exterior goiano. Em um ambiente internacional marcado por mudanças rápidas nas regras comerciais, capacidade de adaptação, diversificação de mercados e segurança para investir passam a ser fatores decisivos para preservar crescimento, empregos e competitividade.

