Hoje é 21 de fevereiro de 2024 05:00
Hoje é 21 de fevereiro de 2024 05:00

Odontóloga teria praticado outros crimes, além do exercício ilegal da medicina

Para polícia, há indícios da prática de lesão corporal e execução de serviço de alta periculosidade, entre outras condutas tipificadas como crime; defesa aponta prisão “arbitrária e injusta”
Dentista Hellen Kacia Matias da Silva, presa em Goiânia suspeita de deformar pacientes em procedimentos estéticos: defesa da odontóloga alega que prisão foi feita de forma arbitrária e injusta, com base em informações equivocadas // Fotos: Redes sociais/PC

A Polícia Civil investiga se a dentista Hellen Kacia Matias da Silva, presa em Goiânia na manhã de terça-feira (30/01) suspeita de deformar pacientes em procedimentos estéticos, também praticou outros crimes contra a saúde pública, além de exercício ilegal da medicina, lesão corporal e execução de serviço de alta periculosidade. A odontóloga foi presa preventivamente por policiais da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Consumidor (Decon), por, em tese, realizar procedimentos que só podem ser feitos por médicos.

A investigação aponta que o instituto dirigido por Hellen Matias, situado no Setor Oeste em Goiânia, estava envolvido em práticas ilegais, incluindo o exercício ilegal da profissão e a execução de serviços de alta periculosidade, violando o Código Penal e o Código de Defesa do Consumidor. Além de prender a profissional, a Decon cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em endereços vinculados à profissional, nos municípios de Goiânia e Santa Bárbara de Goiás.

Conforme mostrado pelo PORTAL NG (veja aqui), na primeira fase da operação, foram encontrados instrumentos cirúrgicos, anestésicos e medicamentos vencidos na clínica da profissional. Esses materiais foram apreendidos e descartados pela Vigilância Sanitária, que também autuou a dentista por infrações administrativas, incluindo inadequação do alvará sanitário.

A análise do celular utilizado pela clínica revelou inúmeros casos de pacientes com rostos deformados após procedimentos com a odontóloga e seus “alunos”. Mais de 10 vítimas prestaram depoimento, assim como ex-funcionários do instituto, e confirmaram realização das cirurgias proibidas em ambiente inadequado, fora do ambiente hospitalar, colocando em grave risco a integridade física dos consumidores. Além disso, os relatos destacaram a postura da dentista, que não aceitava críticas e “tratava os pacientes com descaso”.

Celular apreendido apontou dezenas de vítimas

A investigação contra Hellen Kacia teve início em setembro de 2023, após a Decon receber denúncias de que ela e outros três dentistas estavam exercendo ilegalmente a medicina ao realizarem cirurgias estéticas que são proibidas pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO).

Segundo redes sociais, Hellen Kacia Matias da Silva é cirurgiã-dentista com especialidade em harmonização orofacial. Graduação em Odontologia em 2010, ela tem registro profissional ativo em Goiás. Ela ainda informa que é membro da Sociedade Brasileira de Odontologia e Estética e da Sociedade Brasileira de Toxina Botulínica e Implantes Faciais, pós-graduada em cirurgia oral menor, em toxina botulínica, preenchimento facial e expertise em bioplastia facial.

Em um de seus perfis, a dentista possui mais de 650 mil seguidores, onde compartilha vídeos e fotos que mostram resultados positivos de procedimentos estéticos que realiza em vários pacientes. Segundo a polícia, ela anunciava esses procedimentos nas redes sociais por valores abaixo do mercado, atingindo um grande número de pessoas.

Em novembro de 2023, a polícia cumpriu um mandado de busca e apreensão na clínica da dentista em Goiânia. Na ocasião, foram apreendidos celulares usados para falar com pacientes, prontuários médicos e outros materiais.

No celular usado para falar com os pacientes, os policiais encontraram vários clientes de Hellen que ficaram com rostos deformados após a realização de cirurgias com a profissional. Em conversas, pacientes reclamam de inflamações, cicatrizes e assimetria nos resultados.

“Não havia nenhum registro de ocorrência. Foi só depois da análise do celular que vimos mais de 30, 40 pessoas que reclamavam dos resultados das cirurgias”, afirma a delegada Débora Melo.

Segundo a delegada, além de vítimas de procedimentos realizados por Hellen, a Polícia Civil encontrou clientes insatisfeitos com resultados de procedimentos feitos por “alunos” da dentista. Em conversa divulgada pela polícia, um cliente diz que durante uma cirurgia estética de blefaroplastia, para a remoção de pele em excesso nos olhos, Hellen saiu para almoçar, deixando que outra pessoa fizesse o procedimento.

Defesa aponta prisão arbitrária

A defesa da odontóloga Hellen Matias argumenta que a prisão da profissional foi feita de forma arbitrária e injusta, já que ela, na interpretação da defesa, não descumpriu determinação da Justiça que a proibia de realizar cirurgias estético-faciais após o dia 22 de novembro.

As advogadas Caroline Arantes e Thaís Canedo, que representam a dentista, alegam que a Justiça confundiu o procedimento realizado. Segundo elas, Hellen tem a especialidade buco-maxilo-facial e realizou, após o dia 22 de novembro, procedimento reparador e não estético; portanto – destaca a defesa –, ela agiu dentro da competência de sua especialidade: correção de lesão em paciente com complicação de procedimento (ectrópio) realizado anteriormente por outra profissional, o que é permitido pela resolução 65, artigo 41, do Conselho Regional de Odontologia.

A defesa reforça que o procedimento foi reparador, uma sutura feita na paciente para sanar uma intercorrência ocasionada por cirurgia realizada por outra profissional e não uma blefaroplastia, como consta nos autos e no próprio depoimento da paciente.

As advogadas afirmam também que as fotos divulgadas foram descontextualizadas. Em sua grande maioria são de reações inerentes aos procedimentos e ao processo de cicatrização, como hematomas, inchaços e intercorrências normais.

As advogadas Caroline Arantes e Thaís Canedo alegam que o vazamento das imagens – que deveriam ser sigilosas, posto que não submetidas ainda ao crivo do contraditório – demonstra falta de lisura nas investigações.

Em nota, o Conselho Regional de Odontologia (CRO/GO) disse que “medidas administrativas pertinentes estão sendo tomadas, obedecendo o devido sigilo aplicável ao caso”.

Compartilhar em:

Notícias em alta