A Polícia Civil de Goiás deflagrou nesta sexta-feira (17/7) a Operação Paciente VIP, que investiga um esquema estruturado para burlar a fila de cirurgias do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em Goiânia, Caiapônia e Brazabrantes. Os alvos incluem pacientes beneficiados, profissionais de saúde, servidores públicos e uma assessora parlamentar.
Segundo as investigações, o esquema consistia em burlar o sistema de regulação inserindo dados falsos. Cinco pacientes moradores de Caiapônia, na região oeste do estado, conseguiram realizar cirurgias eletivas (sem urgência) como se fossem procedimentos emergenciais de saúde. Para isso, o grupo cadastrava os pacientes por meio de outros municípios.
De acordo com o delegado responsável pelo caso, Ramon Queiroz, os mandados na capital foram executados na Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e na casa de uma assessora parlamentar. Em Caiapônia, o foco foram as residências dos pacientes beneficiados. A polícia apreendeu documentos e celulares para identificar o tamanho da rede e outros possíveis envolvidos.
O investigador esclareceu que os pacientes não pagavam em dinheiro pelas vagas na fila.
“Possivelmente, até agora, a polícia entende que eles conseguiam isso simplesmente através de um apoio político. Procuravam algum político que conseguia, então, burlar esse sistema”, afirmou o delegado Ramon Queiroz.
Em nota, a SMS de Goiânia informou que acompanha a operação, colabora integralmente com as investigações e adotará medidas cabíveis caso seja constatada irregularidade na conduta de servidores. A Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) destacou que nenhum servidor estadual ou sistema do órgão é investigado, e que sua gerência policial interna apoiou a ação.
A Prefeitura de Caiapônia se manifestou nas redes sociais afirmando que a gestão é vítima do esquema, já que a fraude na regulação era feita a partir de outras cidades. O Portal NG não localizou a defesa dos investigados, pois os nomes não foram divulgados. A Secretaria de Saúde de Brazabrantes não retornou os contatos.
Liberação de cirurgia era feita com senha de servidora morta
A Polícia Civil descobriu que o acesso ao sistema de regulação era feito com credenciais utilizadas de forma criminosa. Os golpistas usavam, inclusive, a senha de uma servidora municipal de Goiânia que faleceu há cerca de três anos. Em outro caso, a senha de uma pessoa que já havia se desligado do órgão estava sendo operada por terceiros.

A investigação aponta que todos os pacientes fraudadores eram de Caiapônia e precisavam de cirurgias na área de ortopedia. Após terem os pedidos iniciais negados por falta de urgência, eles recorriam ao auxílio político. A partir daí, o sistema era burlado e eles passavam a ser lançados como moradores de Nazário ou Brazabrantes para conseguir o atendimento rápido. Duas das cirurgias ocorreram no mesmo hospital, no ano passado.
“O paciente era de Caiapônia, teve a cirurgia negada e, meses depois, conseguiu autorização sendo lançado como morador de outro município. Isso não pode acontecer e foi justamente o que chamou a atenção”, completou o delegado.
Ninguém foi preso nesta fase. De acordo com o delegado, o objetivo principal das buscas é cruzar os dados dos celulares e documentos apreendidos para descobrir quem operava as senhas e quais políticos intermediaram os pedidos. Os pacientes de Caiapônia serão ouvidos nos próximos dias para desenhar o organograma completo do esquema.

