A Comissão Executiva Estadual do Partido Liberal (PL) em Goiás decidiu, por unanimidade, abrir um processo disciplinar que pode culminar na expulsão do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa. A medida, deliberada em reunião extraordinária nesta quinta-feira (27/8), foi motivada pelo apoio público do gestor à pré-candidatura do vice-governador Daniel Vilela (MDB) ao Governo de Goiás, adversário direto do senador Wilder Morais, presidente estadual do PL e nome da sigla na disputa ao Palácio das Esmeraldas.
A representação contra Márcio foi apresentada em 22 de agosto por um filiado do partido e se fundamenta no estatuto da legenda e na Resolução Administrativa nº 004/2026 do PL Nacional, que proíbe expressamente que mandatários apoiem candidatos de outras agremiações ou fora das coligações oficiais. O advogado do prefeito acompanhou a sessão e recebeu cópia integral do processo. A partir da notificação, o chefe do Executivo de Anápolis terá o prazo de 48 horas para apresentar a sua defesa técnica.
O vice-presidente estadual da legenda, Fred Rodrigues, afirmou que o objetivo da direção é concluir todo o procedimento antes das eleições. Ele explicou que o ato da Executiva representou apenas o juízo de admissibilidade e que a tramitação caberá ao Conselho de Ética, onde serão assegurados o contraditório e a ampla defesa. Embora a expulsão seja a punição defendida pelo grupo político de Wilder, o regimento do partido prevê alternativas mais brandas, como advertência ou suspensão do filiado.
O avanço da representação expõe de forma definitiva o racha interno entre duas das principais forças do PL em Goiás. Eleito em 2024 na terceira maior cidade do estado com apoio da estrutura partidária, Márcio Corrêa rompeu com as diretrizes da sigla para se aproximar da base do governo estadual. Com a composição da direção dominada por aliados de Wilder Morais, o prefeito enfrenta uma comissão desfavorável, o que acentuou o tom dos confrontos públicos nos últimos dias.
Márcio Corrêa sobe o tom e acusa Wilder de ‘infidelidade’
Em forte reação publicada em suas redes sociais, o prefeito de Anápolis contestou a acusação de infidelidade partidária e cobrou coerência do diretório estadual. Para Corrêa, o processo foi encomendado pelo próprio senador por meio de um assessor do seu gabinete, com o objetivo de gerar desgaste político.
“Pau que bate em Chico, bate em Francisco. Se for me expulsar por infidelidade partidária, tem que começar pelo presidente. Tem que expulsar deputado federal que não apoia esse projeto. Tem que expulsar vários prefeitos também que não estão com esse projeto. Agora, se quiser fazer mídia e buscar popularidade usando meu nome, hoje nós vamos começar o debate”, desafiou o prefeito.
O gestor anapolino criticou a postura parlamentar de Wilder Morais no Senado, apontando episódios em que ele teria se omitido, como na ausência na votação sobre a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Corrêa argumentou ainda que sua prioridade é o desenvolvimento de Anápolis e que não poderia subordinar as necessidades do município a “um projeto pessoal e falido”. Ele lembrou que, ao se filiar em 2024, enfrentou resistências do próprio Wilder, conseguindo ingressar no PL apenas após a intervenção da cúpula nacional da legenda.
Wilder Morais aponta ‘traição’ e lamenta disputa interna
Em resposta, o presidente estadual do PL e senador Wilder Morais classificou a crise instaurada pelo prefeito como uma “infelicidade” que desvia o foco das demandas prioritárias da população goiana. Em nota oficial e publicação em vídeo, o dirigente reforçou que Márcio Corrêa obteve a vitória em Anápolis graças ao apoio irrestrito da sigla e do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que a mudança de postura configura uma quebra de compromisso moral e político.
“Eu aprendi com meu pai e com a minha mãe que a palavra é essencial na vida de uma pessoa. O prefeito foi eleito pelo PL, com apoio irrestrito do partido e do presidente Bolsonaro. Hoje pede voto para outro partido, para deputado, para outro governo e, não duvide, para outro presidente também. Certamente seria considerado traidor”, declarou o senador.
Wilder afirmou que a manobra só ocorreu em razão do momento em que o ex-presidente Bolsonaro se encontra impedido de atuar diretamente na articulação política. O líder liberal sustentou que não recuará diante das críticas e garantiu que o planejamento eleitoral do PL no estado e os compromissos assumidos com o município de Anápolis serão mantidos, independentemente das desavenças com o atual prefeito.
Íntegra da nota divulgada pelo PL
Nota à imprensa
Nesta quinta-feira (27), a Comissão Executiva Estadual do Partido Liberal em Goiás reuniu-se em sessão extraordinária convocada pelo Edital nº 03/2026 e decidiu, por unanimidade, receber a representação ético-disciplinar apresentada contra o filiado Márcio Corrêa, prefeito de Anápolis. O processo segue de imediato ao Conselho de Ética do partido.
O advogado do Partido Liberal em Goiás (PL-GO), Dr. Leonardo Batista, explicou que a deliberação constitui juízo exclusivo de admissibilidade. “A Executiva não julgou a conduta nem aplicou penalidade. A instrução do processo cabe agora ao Conselho de Ética, com contraditório e ampla defesa assegurados ao prefeito de Anápolis, cujo advogado acompanhou a sessão e recebeu cópia integral do processo”, afirmou.
O presidente do PL-GO, Wilder Morais, lamentou que o partido tenha que despender esforços para resolver questões internas enquanto deveria estar focado em discutir pautas para melhorar a vida dos goianos. “Temos duas missões prioritárias: fazer o estado de Goiás prosperar mais, fazendo a riqueza que o estado produz chegar à mesa de cada família goiana, e eleger Flávio Bolsonaro presidente, para dar fim ao governo do PT e fazer o Brasil voltar a dar certo. Ter um processo político sendo instaurado neste momento, trazendo a política municipal para a estadual, é uma infelicidade. O foco deve ser a melhoria de vida dos goianos e questões político-partidárias internas não deveriam ocupar esse espaço”, declarou Wilder Morais.
A representação foi protocolada em 22 de agosto por um filiado da legenda. Ela atribui a Márcio Corrêa manifestação pública de apoio a uma candidatura ao Governo de Goiás diferente daquela que o Partido Liberal lançou e sustenta oficialmente. O PL disputa as eleições de 2026 com candidatura própria.
A conduta descrita na representação tem base no Estatuto do Partido Liberal, no Código de Ética da legenda e na Resolução Administrativa nº 004/2026 da Comissão Executiva Nacional. A resolução veda a quem exerce mandato eletivo pelo partido a manifestação pública de apoiamento, em todas as suas formas, a candidatos de outras agremiações ou que não integrem as coligações celebradas pelo PL.
A fidelidade às decisões partidárias legitimamente tomadas é o compromisso que cada filiado assume ao ingressar na legenda. Diante de conduta que, em tese, contraria diretriz nacional expressa, cabia à Executiva Estadual dar curso ao procedimento previsto em suas normas, e foi o que ela fez.
O advogado constituído por Márcio Corrêa esteve presente à sessão, teve acesso franqueado aos autos e recebeu cópia integral do processo ao término dos trabalhos.
Comissão Executiva Estadual do Partido Liberal de Goiás

